O descarte de Corantes Têxteis

O fascínio do ser humano pelas cores é tão intenso que parece impossível imaginar a indústria têxtil, alimentícia e de cosméticos sem corantes. Mais de 700 mil toneladas de 10 mil tipos de corantes e pigmentos são produzidas anualmente no mundo, sendo o Brasil responsável por 2,6% dessa demanda.

Pelo menos 20% dos corantes têxteis fabricados no país são descartados em efluentes e, se não forem tratados adequadamente antes de serem lançados em águas naturais, esses compostos podem provocar danos graves ao ecossistema e à saúde da população.

Por Maria Valnice Boldrin Zanoni e Patricia Alves Carneiro, do

Instituto de Química da Universidade Estadual Paulista (Araraquara).

O descarte em efluentes Estima-se que pelo menos 20% dos corantes têxteis sejam descartados em efluentes, devido a perdas ocorridas durante o processo de fixação da tintura às fibras.

A remoção desses compostos dos rejeitos industriais é um dos grandes problemas ambientais enfrentados. Sobretudo considerando que os corantes não pertencem a uma mesma classe de compostos químicos, mas englobam diversas substâncias com grupos funcionais diferenciados, com grande variedade na reatividade, solubilidade, volatilidade, estabilidade etc. que, por sua vez, requerem métodos específicos para identificação, quantificação e degradação.

Não é possível, portanto, remover adequadamente qualquer corante adotando apenas um procedimento.

Além disso, o uso rotineiro de vários outros aditivos químicos de composição diversificada, umectantes, antiespumantes, eletrólitos, dispersantes, ajustadores de pH, normalizadores, seqüestrantes etc., durante o banho de tintura, a montagem e a fixação dificulta o processo de remoção.

Se não forem tratados adequadamente antes de lançados em águas naturais, os efluentes provenientes da indústria de corantes ou de processos envolvendo tintura têxtil podem modificar o ecossistema ou atingir a saúde da população.

Ao diminuir a transparência da água e impedir a penetração da radiação solar, esses rejeitos coloridos diminuem a atividade fotossintética e provocam distúrbios na solubilidade dos gases, causando danos nas guelras e brânquias dos organismos aquáticos, além de perturbar seus locais de desova e refúgio.

Esses compostos podem permanecer por cerca de 50 anos em ambientes aquáticos, pondo em risco a estabilidade desses ecossistemas e a vida em seu entorno.

Os produtos da degradação de grande parte dos corantes nesses ambientes e no homem podem ser ainda mais nocivos que os próprios pigmentos. A informação disponível sobre a toxicidade e o risco dos corantes sintéticos e o impacto dos rejeitos na qualidade da água e em ecossistemas aquáticos é muito pouco difundida, apesar da grande quantidade de resíduos gerada pela indústria em todo o mundo.

Riscos para a saúde

Apenas um pequeno número de corantes pode apresentar toxicidade aguda, levando à morte imediata.

Os riscos para a saúde humana variam de acordo com a forma e o tempo de exposição ao corante, se ele foi ingerido ou se houve sensibilização da pele e das vias respiratórias. Alguns compostos não incorporados totalmente ao tecido podem causar dermatites, sobretudo em áreas do corpo sujeitas à transpiração. Os problemas respiratórios mais relatados são asma e rinite alérgica. Esses riscos, entretanto, são pequenos se comparados aos danos provocados pela ingestão dos mesmos. É importante ressaltar que os riscos crônicos desse tipo de corantes estão relacionados às etapas de biotransformação (rotas do metabolismo desses corantes nos organismos).

Catalisados por enzimas específicas, podem gerar substâncias com propriedades carcinogênicas e mutagênicas, como aminas aromáticas, toluidinas, benzidinas, radicais ativos, entre outras. Estudos recentes têm associado alguns corantes ao câncer de bexiga e do fígado em humanos e a anomalias nucleares e aberrações cromossômicas em animais. A literatura especializada aponta pelo menos três mil corantes comerciais (atualmente não mais fabricados) com atividade cancerígena Alguns corantes de alto poder de fixação, usados para tingir peças de algodão ou seda, também podem ser nocivos aos seres vivos. Durante a etapa de tintura da fibra, alguns corantes, como os pré-metalizados, chegam a liberar substâncias tóxicas, altas concentrações de metais pesados. Outros podem ser acumulados por plantas expostas a fluentes da indústria têxtil e conseqüentemente passar para a cadeia alimentar, contaminando outros organismos.

A indústria tem procurado tratar seus rejeitos no fim do processo de tintura, para atender aos padrões estabelecidos. Mas a contínua degradação do ambiente é prova de que essa abordagem contém erros graves, sobretudo ao supor que o ambiente pode tolerar certa quantidade de poluição. Infelizmente, esse tipo de atitude não reconhece que muitas vezes a poluição não pode ser controlada e que a ênfase deve ser dada à prevenção.

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